{"id":184,"date":"2014-04-22T21:49:04","date_gmt":"2014-04-23T00:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/?p=184"},"modified":"2022-04-11T19:44:45","modified_gmt":"2022-04-11T22:44:45","slug":"o-mendigo-do-campo-de-santana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/o-mendigo-do-campo-de-santana\/","title":{"rendered":"O Mendigo do Campo de Santana"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Arte-O-Mendigo.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Arte-O-Mendigo-300x184.jpg\" alt=\"O Mendigo do Campo de Santana\" width=\"600\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-185\" srcset=\"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Arte-O-Mendigo-300x184.jpg 300w, https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Arte-O-Mendigo.jpg 725w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Seu nome \u00e9 a \u00fanica coisa que o liga, mesmo que de forma quase invis\u00edvel \u00e0 sociedade que passa diante dos seus olhos enquanto fica sentado na cal\u00e7ada mendigando por comida ou dinheiro. J\u00e1 o seu sobrenome foi esquecido h\u00e1 muito tempo.  N\u00e3o serve para nada. N\u00e3o foi capaz de manter os la\u00e7os com a fam\u00edlia. Uma fam\u00edlia que n\u00e3o aguentava mais as bebedeiras di\u00e1rias, a falta de emprego e a viol\u00eancia contra a esposa e filhos. E assim o expulsaram de casa.  N\u00e3o conseguia manter um emprego por mais de um m\u00eas, o vicio na bebida o mantinha cada dia mais sujo e agressivo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tornou-se mendigo e foi a \u00fanica sa\u00edda que encontrou. Vagando pelas ruas da cidade fixou resid\u00eancia no Largo de Santana. Vivia de esmola e da caridade alheia. Quando n\u00e3o conseguia por bem, tomava na for\u00e7a. Seus pequenos furtos o levaram algumas vezes \u00e0 pris\u00e3o. L\u00e1 tinha um teto e comida f\u00e1cil. Muitas vezes a comida era estragada e vinha com baratas e moscas, mas na rua tamb\u00e9m era assim. Revirava o lixo na luta para fazer m\u00edseras tr\u00eas ou quatro refei\u00e7\u00f5es por dia. Na maioria das vezes mal conseguia fazer uma.<\/p>\n<p>Em mais uma tarde chuvosa e fria de agosto ele foi solto. Saiu da delegacia vagando desnorteado, mas com um s\u00f3 intuito: voltar a perambular pelos arredores do Campo de Santana no centro do Rio de Janeiro. O parque foi fundado em 1880 e tem ruas internas \u00e9 todo arborizado e nele moram v\u00e1rios animais que vivem soltos.<\/p>\n<p>Sem pressa o mendigo caminhava em dire\u00e7\u00e3o ao centro da cidade. A paisagem das ruas n\u00e3o mudava, bem como seus personagens: prostitutas, menores abandonados, gatunos, traficantes de drogas e estelionat\u00e1rios. Na selva de pedra, essa era a sua fauna e seus perigos.<\/p>\n<p>Escurecia e a noite n\u00e3o perdoa os despreparados, os amadores e principalmente os curiosos. Na regi\u00e3o do Campo de Santana n\u00e3o tem espa\u00e7o para quem j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 calejado com as cicatrizes da rua.  O local \u00e9 ponto de prostitui\u00e7\u00e3o e venda de drogas.  Nos seus arredores \u00e9 poss\u00edvel encontrar mulheres, travestis e o que mais sua f\u00e9 conseguir fazer voc\u00ea acreditar para te manter l\u00facido. Ali se negocia o corpo, e o que entra pelo seu nariz para entorpecer sua mente e talvez vender a sua alma por qualquer trocado.<\/p>\n<p>Ao longe ele observava algumas pessoas que satisfaziam seus apetites sexuais de todas as formas imagin\u00e1veis. Havia tamb\u00e9m as que faziam a renda di\u00e1ria de outras tantas. Sem ser visto ele pulou as grades para entrar no parque.<\/p>\n<p>Enquanto procurava por abrigo do sereno e do frio, seu estomago dava sinais que precisava de algo mais al\u00e9m do calor. Nas ruas n\u00e3o havia mais cidad\u00e3os que pudessem ajud\u00e1-lo. No entorno da pra\u00e7a, somente pessoas t\u00e3o ou mais perigosas do que ele. E assim como ele, tamb\u00e9m lutavam pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Pelo parque havia diversos pequenos animais: gatos, gansos, patos, pav\u00e3o, cotias e micos. A fome apertava a cada minuto. O frio cortava a cara como uma navalha bem afiada. E n\u00e3o haveria outra sa\u00edda sen\u00e3o tentar ca\u00e7ar um desses animais.<\/p>\n<p>Os gatos eram ariscos e tamb\u00e9m o pouco de humanidade que ainda habitava aquele ser o impedia de comer um gato, j\u00e1 que via como um animalzinho de estima\u00e7\u00e3o, um companheiro e geralmente d\u00f3cil. Um ganso o mordeu ao se defender. As cotias e os micos ele teve medo de pegar. Nunca havia escutado falar de algu\u00e9m que tenha comido esses bichos.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m havia alguns pav\u00f5es. Ah sim, o exuberante, azulado e lindo pav\u00e3o. O gosto deve ser muito parecido com o de galinha, pensou ele. E parou por alguns segundos para contemplar o andar gracioso daquela ave. Ficou observando o bicho e momentos depois o capturou.<\/p>\n<p>Como um predador arisco e voraz agarrou o animal e torceu o pesco\u00e7o do bicho at\u00e9 que parasse de se mexer. Tirou as penas e lavou o corpo do bicho com cacha\u00e7a. Acendeu um fogo com restos de lixo: papel\u00e3o, papel e alguns panfletos. Logo depois que o fogo j\u00e1 estava crepitando e bem quente come\u00e7ou a assar um peda\u00e7o do pav\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficou ali agachado na frente da fogueira observando a carne da ave ganhar cor. Assar e exalar um aroma de frango. Mas ele n\u00e3o teve se quer tempo de ensaiar a primeira mordida em um peda\u00e7o da carne. O mendigo caiu tonto no ch\u00e3o e com a cabe\u00e7a esvaindo em sangue. Ele fora atacado por tr\u00e1s e sem tempo para se defender.<\/p>\n<p>A sua volta apenas vultos o cercava. Percebeu que havia por volta de quatro ou cinco deles ao seu redor. Estava tonto demais para uma rea\u00e7\u00e3o. E escuro demais para distinguir as silhuetas, que se mexiam de um lado para o outro. Algumas das vozes riam e outras carregavam \u00f3dio n\u00e3o s\u00f3 em suas palavras, mas no tom e apreciam que exalava crueldade.<\/p>\n<p>Ouviu uma voz estridente ao fundo gritar:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea \u00e9 louco? Acha que pode entrar aqui e matar nosso bicho? Voc\u00ea n\u00e3o vai sair dessa vivo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas os bichos s\u00e3o do parque e n\u00e3o de voc\u00eas. Respondeu o mendigo sem ao menos conseguir raciocinar quem estaria tomando para si as dores do animal morto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o interessa. LIXO! Voc\u00ea vai morrer! E \u00e9 bom aprender: A vida \u00e9 cruel!<\/p>\n<p>O mendigo levantou-se rapidamente e tentou correr. Saiu trope\u00e7ando nas pr\u00f3prias pernas.  N\u00e3o fazia ideia para qual dire\u00e7\u00e3o ir. Estava escuro demais e mesmo que ainda visse as luzes dos carros que trafegavam na Avenida Presidente Vargas, ela parecia muito longe. E os poucos metros que andou n\u00e3o serviram para nada, rapidamente foi imobilizado por mais duas pessoas, que o jogaram longe. O mendigo caiu de cara no ch\u00e3o. Agora n\u00e3o conseguia respirar direito, sabia que o seu nariz tinha sido quebrado. O gosto de sangue descia por sua garganta. Sentia os dentes da frente mole e quando tentou falar alguma coisa, o acertaram com um chute na boca. E foi t\u00e3o forte que engoliu alguns dos dentes.<\/p>\n<p>Ele foi chutado como uma bola de futebol. Rastejou para o centro do parque.  Ali havia alguns bancos e postes de luz. J\u00e1 foi um local onde os casais namoravam e faziam suas juras de amor.  Mas a viol\u00eancia da metr\u00f3pole afastou os casais e o parque ficava trancado para o p\u00fablico depois das sete da noite.<\/p>\n<p>E aos poucos ele chegou a um local iluminado. O nariz sangrando, a cabe\u00e7a latejando de dor, sem d\u00favida ainda havia muitas outras partes do seu corpo que estariam quebradas. Ele n\u00e3o fazia ideia de como ainda estava consciente. Virou-se para cima tentou levantar e s\u00f3 quando um pouco da luz avan\u00e7ou sobre seus algozes \u00e9 que o mendigo percebeu que se tratava de travestis.<\/p>\n<p>Um grupo maior do que ele imaginava o cercou novamente. Com suas roupas curtas, seios industrializados e maquiagem pesada aliada a ilumina\u00e7\u00e3o do local e toda a situa\u00e7\u00e3o pela qual o mendigo passava fez a cena mais horripilante ainda. O grupo de travestis tinha sangue e \u00f3dio nos olhos. Elas riam e andavam freneticamente de um lado para o outro.  A viol\u00eancia dos chutes, socos e pauladas vinham de todas as partes.<\/p>\n<p>Sem dar tempo para que o mendigo se defendesse o grupo partiu para cima do morador de rua, que foi espancado ainda mais e teve suas roupas velhas rasgadas. Os trapos serviram de corda. Amarram as m\u00e3os do mendigo, que ainda estava l\u00facido e respirava. Apesar das v\u00e1rias contus\u00f5es e ossos quebrados.<\/p>\n<p>Arrastaram o mendigo at\u00e9 as grades que cercavam o parque. Eram lan\u00e7as pontiagudas de ferro com mais de 1.60 m de comprimento. Os travestis acharam uma das barras soltas, que eles usavam para entrar rapidamente no parque.<\/p>\n<p>Cerca de quatro travestis suspenderam o mendigo e o empalaram. Introduziram a lan\u00e7a pelo rabo do pobre desgra\u00e7ado, perfurando seus \u00f3rg\u00e3os at\u00e9 sair pela boca. E encostaram a lan\u00e7a na grade. Amarram os bra\u00e7os e o t\u00f3rax do mendigo nas grades para que ele n\u00e3o escorregasse.<\/p>\n<p>Como essa cena medieval, o grupo de Travestis deixou um bilhete escrito com batom que dizia:<\/p>\n<p>\u201cMorreu pela boca! Esse nunca mais pensar\u00e1 em mexer com nossos bichinhos.\u201d<br \/>\nT.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu nome \u00e9 a \u00fanica coisa que o liga, mesmo que de forma quase invis\u00edvel \u00e0 sociedade que passa diante dos seus olhos enquanto fica sentado na cal\u00e7ada mendigando por comida ou dinheiro. J\u00e1 o seu sobrenome foi esquecido h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o serve para nada. N\u00e3o foi capaz de manter os la\u00e7os com a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":185,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[100,99,103,101,102],"class_list":["post-184","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","tag-campo-de-santana","tag-conto","tag-conto-de-suspense","tag-suspense","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=184"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":766,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/184\/revisions\/766"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/185"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/filipesouza.com.br\/palavrascomunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}